Pergunta:

Olá, Su! Graça e paz! Esse texto vai parecer mais um desabafo do que uma pergunta, mas vamos lá. Sabe, ando pensando muito em como a forma que os meus pais me criaram me afetou, principalmente a minha mãe. Fico incomodada quando meu pai fala para os outros que ele e minha mãe nunca me bateram; ele sabe muito bem que é mentira (ele já me deu um tapa na mão e minha mãe costumava me bater com as mãos ou a famosa sandália/chinela). Quero pontuar algo (serei sincera. Não sou só eu que digo isso, mas todos que me conhecem): sempre fui uma criança muito tranquila e obediente. Mas o que causou maior impacto não foi essa questão do uso de tapas e chineladas para “educar”, foram as palavras e ações. Meus pais ( em especial, minha mãe, já que o número de vezes em que ela fez isso é BEEEEMMM maior do que as vezes que meu pai fez) falavam e falam/faziam e fazem coisas que machucam e não pedem desculpas, mas acham que estão certos e que eu estou sendo ingrata. Vou dar uns exemplos. 1)Certa vez, quando meu pai era líder de uma congregação, houve uma dinâmica no fim do culto, pois era dia dos pais. Houveram perguntas bíblicas para os pais ganharem doces. Em uma pergunta, minha amiga da época me perguntou qual era a resposta (éramos crianças, entre 10 e 11 anos) e eu falei pra ela. Mas aí, ela falou pra outras meninas e perceberam que estavam soprando as respostas. Do púlpito, NO MICROFONE meu pai perguntou se era eu quem estava soprando a resposta, e disse que quando chegássemos em casa, IRIA ME DAR UMA PISA. Foi uma brincadeira de péssimo gosto. Depois que o culto foi encerrado, meu pai fez uma reunião com um grupo de louvor na igreja. Eu fique muito triste, envergonhada e com medo devido ao que ele falou. Fiquei sentada em um banco em um ponto de vista das costas dele. Estava quase tendo um treco tentando engolir o choro; encostava os braços no banco da frente, abaixava a cabeça e chorava. Ele só me pediu desculpas há cerca de 2 ANOS porque EU PRECISEI FALAR COM ELE SOBRE ISSO, já que aquele acontecimento não saía da minha cabeça. Nesse dia, quando ele me pediu desculpas, antes de falar com ele, falei com minha mãe, perguntei se ela lembrava. Ela me chamou de fresca, sensível e disse que eu estava muito apegada ao passado. 2) Quando a casa onde moro estava sendo construída, eu comecei a brincar com a filha e a sobrinha da vizinha. Mas um dia, nos desentendemos por um motivo bobinho de criança. Acho que me chamaram de alguma coisa. Enfim, saí correndo e tropecei em nas britas. No caminho de volta para a casa onde morávamos, começei a chorar (por causa da dor da queda e o desentendimento com as meninas). Meu pai também reclamou comigo nesse dia, mas minha mãe falou algo que me marcou: que meu choro é irritante, que ela odeia esse som e que era estranho, pois eu parecia rir e chorar ao mesmo tempo (hoje eu sei que ela disse a última coisas devido aos soluços. Eu soluço bastante quando choro). Esse é um dos epsódios em que fui ensinada a engolir o choro. Nunca adiantou; Deus me fez meio chorona mesmo kkk 3) Uma vez, uma filha de uma ex-vizinha veio brincar aqui em casa. Em um momento ela começou a me ofender, falando que meus olhos eram feios e que eu parecia um fantasma. Fui contar pra minha mãe achando que ela iria me defender, mas ela começou a gritar comigo e a concordar com a menina; disse que meus olhos eram mesmo muito feios e que de fato pareciam os de um fantasma. 4) Mais dois acontecimento da infância: eu devia ter uns 9 anos. Não lembro como começou esse epsódio, mas minha mãe estava gritando e brigando comigo. Como já falei, minha mãe se irrita quando eu choro e quer que eu engula o choro. Pela primeira vez na vida, consegui fazer o que ela queria: engoli o choro e não chorei. Ela ficou ainda mais brava e, só porque não chorei pela primeira vez, ela me chamou de cínica e SOCIOPATA. Poxa, eu era só uma criança, sabe? Quando eu também devia ter uns 9, 10 anos, não consegui lavar a louça tão rápido quanto ela queria. Aí ela começou a reclamar e falou que era bom que eu crescesse e MEU MARIDO ME DESSE UMA SURRA/PISA. 5) Na infância, tive um problema chamado puberdade precoce. Meu cabelo sempre foi bem liso, mas depois que essa questão de saúde começou, ele mudou e hoje é um 2C-3A. Minha mãe acha que a culpa é toda do tratamento que fiz, mas, embora eu acho que isso pode ter influênciado, poder ser que a mudança de curvatura teria acontecido na adolescência mesmo se eu não tivesse tido puberdade precoce. Enfim: quando o cabelo começou a mudar e ficar cheio, minha mãe correu para usar botox nele e deixá-lo liso. Não vou mentir, durante um tempo, gostei de ter o cabelo liso, mas depois, eu “gostava” porque tinha medo de ficar feia sem ele, de não saber cuidar e outras coisas. Passei pela transição capilar. Minha mãe não concordou tanto assim na época. Ela já me disse que me prefere de cabelo liso porque fica mais natural em mim. Um dia, de manhã, ela começou a brigar comigo por causa do meu cabelo. Ela queria que eu alisasse, ou melhor, ela disse que ELA IRIA ALISAR. Ele já estava bem enroladinho, mas ela insistia que meu cabelo era liso e que ela ia alisar meu cabelo. Fiquei assustada por ela estar gritando e pelas coisas que ela me disse e começei a chorar. A coisa piorou e ela continou surtando, insinuando que meu cabelo só iria ficar bonito se eu fizesse isso, entende? Chorei muito. Depois, ela ficou fria (isso acontece com frequência em momentos acalorados dela. Ou isso ou ela continua furiosa me provocando de tempos em tempos. Ex: se ela brigou comigo às 08:00, às 08:05 ela solta: “Porque vc é assim, né, A.?” e começa render assunto. Isso acontece mais de uma vez em dias como esse). 6) Existem vezes em que ela não respeita minha personalidade, problemas e interesses. Sou uma tímida introvertida e ela é MUITO extrovertida. Há momentos em que ela quer fazer pressão pra eu interagir, e quando fico mais na minha perto de quem não conheço ou não tenho intimidade, ela reage como se eu fosse uma menina chata e mal-educada. Ela já me perguntou se sou um bixo do mato por causa disso =/ . Minha timidez me causa ansiedade, e quando eu falava para os meus pais que queria não ser tímida, eles soltavam ” Então é só não ser”. Enfrentei umas questões com baixa auto-estima que estou tentando melhorar. Uma vez, falei pra minha mãe como isso estava me afetando; ela rebateu:”É só você segurar uma enxada, capinar e num instante essa baixa auto-estima passa”. Já tive uma crise de ansiedade devido à minha validação acadêmica, mas nunca contei. Minha mãe sempre miniminiza questões psicológicas, fala das pessoas com ansiedade e depressão como se elas estivessem em pecado e distantes de Deus, além de acreditar nessas teorias loucas de que certas comidas e tela geram autismo e TDAH (“antes das vacinas isso não existia!”). Uma vez ela falou pro meu pai que o autismo devia ser causado por demônios que pussuíam as crianças, mas ainda bem que ele discordou kkkk. Quando eu decidi que queria ser psicóloga, ela mandava indiretas pra mim: colocava vídeos de um pastor no youtube que acredita que a psicologia é diabólica, que neurodivergência e transtornos mentais são mentiras criadas pelos psicólogos/psiquiatras, etc… Ela colocava em volume alto vídeos em que ele falava coisas como essas. Ainda tive que escutar se eu queria mesmo cuidar de “gente doida”. De um tempo pra cá, ela se conformou com a minha escolha, mas tem o mesmo pensamento sobre questões mentais. Eles não teriam condições de pagar terapia pra mim, mas a questão é que eles não se importam e não dão importância pra isso.Quando meu pai sofreu um acidente e precisou fazer fisioterapia, ela entrou em uma fase de insistir que eu deixasse o sonho da psicologia e me tornasse fisioterapeuta só por questões de salário e porque ELES achavam uma profissão boa. “Você vai trabalhar pouco pra ganhar muito” :/ . Meus pais sempre iam juntos para as sessões de fisioterapia. Um dia, eu fiz uma pergunta a minha mãe relacionada a ida deles naquele dia. Ela me respondeu e eu fui para o quarto. Assim que cheguei lá, ela veio quase correndo (literalmente!), apontou pra mim e, com o semblante completamente mudado e transtornado, ela disse que era minha responsabilidade ir com meu pai; eu que tinha que ir com ele no ônibus e ficar lá com ele. Ou seja, eu não fiz NADA de errado e, do nada, o humor dela mudou e ela surtou! 7) Não gosta de me ouvir falar sobre meu futuro e vida escolar, mas quer meu dinheiro quando eu for adulta. Eles sempre falam que o objetivo dos meus estudos é dar uma vida melhor pra eles. Por favor, não me interprete mal, mas é como se minha profissão girasse em torno disso. Quando desabafo sobre as preocupações sobre os estudos, ela se irrita, faz cara feia, diz que só sei falar disso, que só penso nisso e que é irritante, etc… Agora, me trata assim, mas quer ser sustentada por mim quando eu crescer. Tem lógica nisso???? 8) Tive uma criação meio superprotetora. O que aprendi na idade Y, deveria ter aprendido na idade X. Logo, hoje, eu não sei fazer coisas que outros adolescentes sabem. Travo na hora de escolhar, frutas, verduras e legumes pelo aspecto, por exemplo. Não sei cozinhar muita coisa. Minha mãe já me colocou pra frazer strognoff no ano passado, mas não lembro da receita. Tenho dificuldade em lembrar de listas grandes, comidas com muitos ingredientes. Já me ensinaram a costurar, mas perdi a prática e esqueci como fazer isso.Só sei pegar o ônibus pra ir e voltar da escola enquanto vejo adolescentes indo ao shopping sozinhos. É, eu sei que pareço (e talvez, eu seja) meio burra e lerda, mas não sou a culpada ou vilã da história. Quando você deixa sua filha dentro de uma bolha e espera que, de repente, ela já saiba tudo o que não a ensinaram, o resultado não vai ser nada bom. Estou disposta a aprender, mas minha mãe grita, me humilha e me faz chorar quando cometo erros. Por isso deixo de fazer umas coisas: por medo da reação dela quando eu errar. Esse mês, antes de eu ir pra escola, ela me disse que queria que eu comprasse batatas na volta. Me perguntou se eu iria saber selecionar e fiquei acanhada. Quando ela disse “batata”, pensei na batata amarela e tals (sei que existe a doce, por exemplo, mas sabia que não era essa que ela queria). Aí, ela falou algo que bugou meu cérebro: “Tem a batata e a batatinha. Quero a batatinha.” Sempre achei que fosse tudo batata kkkk (rindo pra não chorar). Aí ela desistiu e disse que não era pra eu comprar pra ela não se estressar. Ficou um clima pesado, e do nada, ela começou a me humilhar, falando várias coisas (“você já deveria saber isso e mais!”, “quero saber como vai ficar quando eu morrer!” ” A minha situação tá ruim, não?!”, “você parece uma criança!” etc…). Eu começei a chorar e, porque eu chorei, ela queria ME PROIBIR DE IR PRA ESCOLA NESSE DIA! Ficou me perguntando porque eu estava chorando. Depois de tudo o que ela disse, o motivo era óbvio! Implorei pra que ela me deixasse ir, mas ela só negava. A vizinha a chamou e implorei outra vez. Ela apontou pra mim e falou “Cala a boca!!!”. Assim que foi até a vizinha, ela se transformou!!! O tom de voz mudou: “Oiii, tudo bem???” e ficou brincando com a filhinha da vizinha. Quando voltou, se transformou de novo: o sorriso sumiu e voltou a ser exatamente como antes da vizinha chamar. Ela abriu um sorriso debochado e perguntou OUTRA VEZ por que eu estava chorando. Pedi outra vez para ir pra escola. O sorriso de deboche sumiu e ela gritou: “VAI!!!” “Vai chorar no caminho, é?!”. Sim, fiz isso: chorei no caminho até a parada de ônibus. Na escola, sorri, aprendi e tive paz. Quando cheguei em casa, o clima ainda estava horrível. Queria ser jovem aprendiz pra ter meu próprio dinheiro e ajudar em casa, mas se minha mãe já me trata assim quando erro, imagine os superiores em uma empresa?!!! Fico procrastinando pra não fazer um curso pra colocar no currículo :( Uma vez, meus pais me chamaram pra conversar. Falaram que ficam com medo de como vou tratá-los e se vou sustentá-los quando forem idosos. Minha mãe citou um vídeo em que uma ADULTA comprava a feira do mês (comida) pros pais dela. Ela (minha mãe) falou que eu já deveria estar fazendo isso!!! Como ela espera que uma adolescente de 13 anos (era minha idade na época), sem um centavo no pix sustente a casa?! 9) Minha mãe é de Sergipe e veio de lá quando casou com o meu pai. Toda a família dela continua lá até onde sei (bom, menos meu tio, que vive no RJ). Esse mês, meu tio, minha avó e minha bisavó vieram pra cá, e as duas estão ficando aqui com a gente. Tem sido uma agonia pra mim. Eu cresci longe delas; é como estar com 2 estranhas dentro de casa! Tô perdendo a paz e o sossego. Elas estão dormido no meu quarto (na minha cama de casal) e na teoria, era pra eu estar dormindo lá também (na minha cama de solteiro). Mas elas fazem um carnaval pra ir no banheiro e comer de madrugada! Meus pais deixam a luz da cozinha acesa de noite até o dia seguinte por causa delas. Quando elas levantam de madrugada, fazem barulho, deixam a porta escancarada e deixam a luz entrar e bater bem onde fica a cama de solteiro, etc… Não aguentei passar mais de duas noites com elas e pedi a minha mãe pra dormir no quarto dela. Ela ficou irritada e disse que não, porque elas iriam pensar que estavam incomodando. E elas estavam fazendo o que, então?! Graças a Deus estou dormindo no quarto dos meus pais. Essa semana, minha mãe falou pro meu pai diminuir o volume do computador dele (onde ele estava estudando e já estava baixo) pras visitas dormirem. Fiquei com pena, coitado. Para o bem ou para o mal, elas estavam dificultando o meu sono, mas eu não podia falar nada. Agora, a gente tem que zelar pelo bom sono delas. Um dia desses, já dormindo no quarto dos meus pais, me levantei pra ir ao banheiro de madrugada. A tranca desse banheiro não funciona tão bem. Eu estala lá, urinando e do nada minha bisavó entra com tudo no banheiro. Aí podem pensar “Ah, mas a porta não estava trancada”. A questão é que ela não encostou a porta e me esperou sair, mas FICOU ME ENCARANDO ENQUANTO EU URINAVA E ME LIMPAVA. Tentei encostar a porta, mas ela continuou segurando. Minha avó já tentou invadir meu banho pra pegar algo dentro do banheiro, mas a fechadura funcionou dessa vez e não deixou ela entrar. Poxa, cadê minha privacidade???? Ela (a bisavó) fica perambulando pela casa feito alma penada e me encara por muito tempo. Fico MUUUUITO desconfortável! Minha avó não se toca que não temos intimidade nenhuma. Ela fica querendo me agarrar, abraçar e beijar. Repito: fico visivelmente desconfortável!!! Hoje mesmo, ELA DEU UM TAPA NO MEU BUMBUM e ficou rindo falando que era igual ao da minha mãe. Olhei pra minha mãe com cara séria pra mostrar que fiquei SUPER sem graça e odiei a brincadeira, mas ela ficou rindo. Esse povo não se toca???!!! Outra coisa:ficam mexendo nas minhas coisas! Não gosto das pessoas mexendo nas minhas coisas sem permissão, ainda mais meus livros. Dei um vacilo, a bisavó ficou bisbilhotando meu livro em um dia, e no outro, meu livro de devocional!!!! (Que é o seu. É uma benção, a propósito). Hoje, minha avó ficou olhando minha bíblia. Como minha bíblia e devocional tem anotações, a sensação é de que duas estranhas leram meus diários. Devido a minha puberdade precoce, tenho problemas relacionadas à menstruação (irregularidade, dura mais do que uma semana e já tive 2 casos de hemorragia). Minha mãe anotou quando desceu pela última vez, cor, etc… em um caderno. E aí, lá vai a minha bisavó pegar o caderno e ficar lendo tudo. Minha mãe falou que eu DEVERIA estar conversando bastante com minha avó e tals. Mas eu não vou e nem quero fingir ter uma intimidade que não tenho. O único que não tá me forçando a nada ATÉ AGORA é o meu pai. Deus sabe que estou contando os dias pra elas irem embora. Ano que vem, pode ser que minha avó fique de novo aqui, só que com meu avô ao invés da minha bisavó. Vou passar por toda essa agonia outra vez. Sei que ficou muito grande, mas eu precisava desabafar e preciso de conselhos. Amo minha mãe, mas as palavras e ações delas machucam muito. Meu pai sempre diz que ele e minha mãe são as únicas pessoas que querem o meu bem, e acho essa fala bem problemática. Minha mãe nunca pede desculpas (“Eu fiz isso, mas eu tive um passado assim,assim e assado”, “eu fiz isso, mas você é assim e assim”). Infelizmente, como já falei em outra pergunta (não sei se lembra, mas sou a menina que queria permissão pra ler/assistir Harry Potter), diálogo não é opção aqui em casa. Ah, e só para deixar claro, minha avó e bisavó não possuem condições com demência nem nada do tipo. São muito lúcidas em relação ao certo e errado. Como lido com esse jeito da minha mãe? Como me viro em relação às feridas emocionais e os traumas? Como me torno mais independente (em relação ao tema dos efeitos da superproteção)? Estou errada sobre meus pais e parentes ou sobre isso tudo? Como faço pra conviver e aguentar até elas irem embora??? Um abraço bem apertado>>> A.

Resposta da Sú:

Hello, A.! Que bom encontrar com você aqui novamente!

Obrigada por dividir essas questões tão complexas e dolorosas que estão morando dentro de você. Muitas vezes, o simples exercício de colocar isso tudo para fora já ajuda um pouquinho, não é?

Fiquei triste de saber que realmente não tem diálogo nenhum com seus pais. E entendo que tem muita coisa acumulada nesse relacionamento. Várias das questões que você comentou são motivos legítimas para você ficar magoada e triste. Não é coisa da sua cabeça. Uma das coisas mais difíceis é a gente saber que não está sendo ouvida e não está sendo respeitada.

Eu acho que ainda valeria a pena você escrever uma carta para seus pais (ou para sua mãe, talvez?) simplesmente dizendo que você gostaria de ter mais diálogo com eles, de ter respeito mútuo, ou seja, de ser mais ouvida e validada em alguns pontos. Escolha uma ou duas questões que são de maior importância, e apenas as mencione, pedindo com muita gentileza e educação que houvesse alguma mudança nesse aspecto. Talvez Deus use essa carta para mudar algo. Talvez não adiante nada. O mais importante é você saber que tentou melhorar a situação.

A segunda coisa que, a meu ver, pode tornar sua vida um pouco menos atribulada no convívio familiar é o perdão. Perdoar isso tudo que você descreveu talvez pareça a coisa mais difícil do mundo – e, como nossas próprias forças, é impossível mesmo. Eu sei do que estou falando, pois venho de uma família onde teve abuso verbal, emocional e sexual. A capacidade de perdoar nossos pais é um presente que Deus nos dá para o nosso bem, para que esses conflitos todos não atrapalhem nosso relacionamento com Ele e não pesem mais adiante nos nossos relacionamentos com outros.

Faça uma lista de tudo o que está pesando (tipo as coisas que você descreveu pra mim). Não se preocupe com a redação, nem em fazer uma letra bonitinha. Pode escrever com raiva, pode escrever palavras feias até. Pode (deve!) despejar tudo no papel, em quantas folhas precisar. Lave a alma! kkk Depois, pegue essas folhas de papel e pique em pedacinhos beeeeem pequenos, de um jeito que não dê para ninguém ler/entender o que está escrito. Rasgue com a mão, até ficar bem picadinho. Enquanto você vai rasgando o papel, fale com Deus. Peça ajuda dele para perdoar todas essas ofensas contra você. Peça para ele tirar esse peso de seu coração e lhe dar liberdade. Peça para ele ajudar você a voltar a esse perdão sempre que necessário. A gente declara o perdão uma vez, mas precisa voltar para essa decisão com frequência, para não viver uma vida amargurada. Quando terminar de orar e picar o papel jogue fora esse “confete”.

Sempre que acontecer um novo incidente que magoar você, repita o processo: procure expressar para a pessoa que você ficou triste/magoada/com raiva. Mesmo que a pessoa não entenda ou não aceite, essa tentativa de articular seus sentimentos (de modo educado, respeitoso e calmo) é importante para sua saúde mental. Então, não importa o que aconteça, anote tudo. Ore e pique o papel. Como qualquer exercício, esse precisa de prática. As coisas não vão melhorar/sumir por mágica, mas Deus vai trabalhar nessa situação e vai ajudar você a lidar com sua família. Ore por seus pais. Peça para Deus colocar amor, graça, misericórdia, humildade, aceitação no coração deles. Peça ajuda do Espírito Santo para perseverar nesse exercício até que haja mudanças ou que você possa viver de modo mais independente.

Quanto à superproteção, escreva mais sobre isso para conversarmos melhor. É um assunto á parte e complexo também.

E, quanto à sua bisavó e avó, você também pode pedir com muito jeito para elas não mexerem nas coisas, não ficaram tocando em seu corpo sem permissão e não invadirem sua privacidade. Procure falar com elas várias vezes, sempre com muita calma e gentileza. E, de novo, se não adiantar, saiba que Deus vai lhe paciência para suportar. Ah, e nada de ficar sofrendo por antecipação quanto ao ano que vem. Até lá, muita coisa pode acontecer! Confie na bondade, no cuidado e no poder de Deus!

Até a próxima!

Kisses,

Su