Pergunta:

Olá, Su! Tudo bem? Então, queria conversar sobre um assunto que está na minha mente já faz uns meses. Bom, desde que eu nasci, eu fui criada religiosamente na Assembléia de Deus. Quando criança, doutrinas como o bastimo com Espírito Santo ou questão de usos e costumes não me causavam grande incômodo, porque eu era uma criança que, devido a criação, ainda não tinha interesse em pulseiras e calças, por exemplo, e nem questionava as doutrinas da igreja, até porque, nessa idade, normalmente aceitamos tudo o que é ensinado e temos uma fé mais ingênua, de fato.Porém, agora, na adolescência, isso mudou. Eu quero usar maquiagem, pulseiras, colares, brincos, calças! Não é como se eu estivesse me comparando ou invejando outras meninas que o podem fazer. É uma questão de gosto/estilo. Esse ano, fiz um passeio escolar a um museu onde foi exigido o uso de caçal jeans. Peguei a da minha prima emprestada (não tenho nenhuma calça), uma calça soltinha de acordo com a modéstia. Senti que finalmente tinha encontrado meu estilo kkkkk Não gosto de ter que usar saia sempre, e sei que enquanto estiver nessa denominação, é assim que vai ser.Outra coisa presente na Assembléia de Deus é a crença no falar em línguas (mais conhecido como batismo com Espírito Santo). Eles acreditam que TODO cristão deve falar em línguas. Na Assembléia, isso funciona como um “termômetro” espiritual, ou seja, há a crença implícita de que alguém que fala em línguas é mais espiritual do que quem não fala em línguas. Uma vez, minha mãe já me disse que devia ter alguma coisa errada na vida de Fulana só porque Fulana não fala em línguas!!! Isso de falar em línguas abre espaço pra muita desordem nos trabalhos grandes da igreja. Ano passado, houve um evento de adolescentes na igreja, ao qual os adolescentes são obrigados a ir (não podemos dizer “não quero ir”). O pregador chamou os que não eram “batizados no Espírito Santo” à frente do pulpito. Eu, que ainda acreditava no falar em línguas como a Assembléia, fui. Um monte de gente do grupo de adolescentes que eu fazia parte (mudei de congregação, mas a denominação e a área é a mesma, entende?) colocou a mão na minha cabeça, o barulho tava insuportável, tinha gente sendo dada como “batizada” quando visivelmente não estava falando uma nova língua (isso sempre acontece. Um monte de gente falando “lálálá” e os líderes da igreja achando que isso é um idioma), os músicos tocavam músicas que apelavam para o emocionalismo ou batida pentecostal. Naquele barulho e confusão toda, eu chorava, mas não pela presença do Espírito. Na minha mente eu pedia :Deus, me tira desse lugar. O pior de tudo? Os supostos adolescentes “batizados” bancam os espirituais em dia de evento, mas continuam sendo uns atribulados -pra não dizer coisa pior – fora do templo, e muitas vezes, até na igreja na frente de todos. Eles podem falar palavrão, fofocar, namorar escondido, porque sabem que ninguém da liderança vai tomar uma atitude enquanto eles servem a dois senhores. Tive que participar do mesmo evento esse ano e, novamente, o pregador chamou “quem não é batizado com Espírito Santo” à frente do pulpito. Eu já não acredito no falar em línguas da mesma forma que os assembleianos. Para mim, não é porque Fulano fala em línguas que eu também vou falar, assim como não é porque eu sou de humanas que Fulano também vai ser, entende? Deus deu diferentes dons as pessoas; não podemos generalizar um deles e torná-lo termômetro de espiritualidade. Voltando ao evento, como eu já tinha decidido isso no meu coração – e não queria ter a mesma experiência bizarra do ano passado – apenas dobrei meus joelhos no banco onde eu estava e orei. Conversei com Ele sobre minhas crenças e pedi pra Ele me direcionar, não importa a denominação onde eu esteja. Só não sei como vou sobreviver a mais momentos de chamado para ser “batizada com fogo”, que ainda serão muitos daqui até o dia em que serei uma maior de idade. Ainda me lembro de momentos da infância, onde após não receber o dom de falar em línguas depois de uma oração, eu pensava “Nossa, minha mãe vai ficar tão brava/decepcionada comigo!” Desde os 10 anos ela me falava que eu já devia estar falando em línguas .Outra coisa é a questão do legalismo. Sei que em toda denomimação haverá legalistas, mas esse é um grande traço das igrejas pentecostais. Escutar música de cantores não-cristãos mesmo que ela reflita mais sobre Deus do que muita coisa gospel por aí? Não pode, é “música do mundo” pra eles. Ler um livro de um autor que não é cristão? Hum… Pra eles, é melhor pensar duas vezes antes de cometer um desses “pecados gravíssimos”, viu? Kkkkk Brincadeiras à parte, isso é muito ruim e revoltante pra mim. Eu escuto músicas séculares – com dicernimento, claro -, mas não sei como meus pais reagiriam a isso. Antes achava que eles não teriam uma reação negativa (Minha mãe já imitou brincando a música Pretty Little Baby, que não é cristã, várias vezes por brincadeira aqui em casa). Mas tô começando a achar que não é bem assim (lembra o que meu pai falou sobre o Michael Jackson?). Um dia, uma conhecida cristã postou uma foto com música em inglês (tradução bem leve, nada de mais) e minha mãe, ao ver a postagem, chamou ela de “crente de calcinha virada” simplesmente porque a música não era cristã, sem nem saber a tradução! Queria falar com meus pais sobre isso pra ter certeza de que tudo bem – ou não kkkk – sobre música não-cristã/secular. Ou seja, esse legalismo é o principal fator que levou meus pais a me proibirem de assistir/ler Harry Potter, como se isso fosse um pecado ou coisa do Diabo. Tenho um livro chamado “Onde está Deus na Cultura Pop?”, que comprei após a questão de Harry Potter onde fui proibida. Queria entender mais sobre o assunto no geral, não afrontar ninguém, sabe? Já pensei em usar esse livro pra falar com eles sobre isso, mas acho que eles ficariam furiosos quando chegassem na parte onde o autor diz que não pecado assistir/ler Harry Potter. Não duvido que destruiriam o livro! Esse livro comprei com dinheiro deles quando pedi dinheiro para livros novos. É, acho que estou, como dizemos no Nordeste, lascada!Assim, já tomei uma decisão: quando completar dezoito anos, vou para uma igreja Batista. Claro que ainda vou estudar mais sobre a igreja Batista antes de a escolher totalmente, mas por enquanto, é o que tenho em mente. Acho que não é da vontade de Deus que eu fique em uma denominação onde tenho que fingir acreditar em certas coisas e concordar com outras.Não estou atacando as pessoas da Assémbleia. Conheço muitas de bom coração, cristãos piedosos que, embora tenham opiniões direfentes das minhas, não se deixaram cegar pelo legalismo ou emocionalismo barato.Conversar com meus pais sobre isso – minha vontade de sair da Assembléia – seria complicado, eu acho. Acho que eles iam tentar impôr as crenças deles e levar minha opinião sobre isso como uma falta de respeito, e iriam soltar os clássicos ” não é crente mais não, é?”, “o que tá acontecendo com vc, A? Vc não era assim.”Então, visto os acontecimentos e o relato, queria saber sua opinião sobre isso. Mudo de denominação? Como converso com meus pais sobre isso (e outra, seria sensato conversar com eles sobre isso no momento)? Como converso com eles sobre música, ou será que eu deveria simplesmente parar de escutar música sécular e esperar até sair de casa? Como faço para “sobreviver” quando o momento para “batismo com Espírito Santo ocorrer? A.

Resposta da Sú:

Hello, A.! Muito obrigada por me ajudar a entender melhor o seu contexto e os desafios que você enfrenta aí. Eu sei que é muita situação muuuito difícil, mas também acredito no poder de Deus para fortalecer você no meio disso tudo.

Concordo plenamente com você que “batismo do Espírito Santo” não é “termômetro” de espiritualidade e, com certeza, o fruto do Espírito em nossa vida não gera orgulho, arrogância, julgamento nem cobranças. Coisas assim vêm da nossa natureza humana corrompida e não de Deus! Portanto, minha amiga, apegue-se firmemente à seguinte verdade: Quando você começou a caminhar com Cristo, você recebeu o batismo do Espírito Santo de uma vez por todas em sua vida. Ele quer ocupar cada vez espaço dentro de você e trabalhar em você, mas esse é um processo pelo qual todo cristão passa para o resto da vida – e não tem absolutamente nada a ver com falar em línguas. Cada um recebe diferentes dons de Deus para edificar o corpo de Cristo. Quem dá esses dons é o Espírito no tempo e do jeito dele. Esse monte de manifestação de “dom de línguas” que a gente ouve por aí muitas vezes é a própria pessoa inventando coisas. (Pode ser legal ler e estudar 1Coríntios 12, que fala sobre dons.)

E o que fazer?

Se houver alguma possibilidade, procure outra igreja logo (tipo, ontem, kkk). Avalie denominações como batista, metodista, episcopal/anglicana, presbiteriana unida ou presbiteriana independente. Dentro de todas as denominações, há igrejas mais legalistas, então não vá só pela denominação. Avalie a igreja em si.

Se não tiver nenhuma chance de mudar de igreja agora, guarde duas frases em sua mente: “Essa é uma questão entre Deus e eu” e “Deus conhece meu coração”.

Sempre que tiver essas coisas de “batismo do Espírito Santo”, fique em canto bem quietinha, ou mesmo levante-se e saia do templo. Vá orar do lado de fora. Se alguém vier cobrar, use as duas frases acima. A pior coisa que pode acontecer é a igreja expulsar você (e aí você pode ir para outra igreja, kkk). Mas não acho que isso vá ocorrer. Eu cresci na igreja e sei o quanto é difícil lidar com essas cobranças todas (de outros crentes e da família também). Mas Deus conhece suas circunstâncias, ele sabe o quanto são difíceis. Ou ele vai criar uma saída para você não ter de viver isso tudo, ou ele vai lhe dar forças e sabedoria para lidar com essas questões pelo tempo que for necessário.

O mesmo se aplica àquilo que seus pais permitem ou não (músicas, séries, etc.). Como conversamos anteriormente, no momento não há muita coisa que você possa fazer. Evite discussões que você sabe que não vão ser produtivas. Se eles já proibiram certas coisas, dificilmente vai adiantar você tentar convencê-los a mudar de opinião, mesmo que você tenha razão. Isso só causará estresse para todos vocês e, ainda por cima, pode levar seus pais a se tornarem ainda mais rígidos. Continue a pedir muuuita paciência e sabedoria de Deus. Continue a se alimentar da Palavra e de conteúdos que tenham uma teologia saudável e equilibrada – que priorizem seu relacionamento  com Deus, e não apenas comportamentos “corretos”. Aproveite e peça para Deus colocar aí perto de você uma pessoa com quem você possa estudar a Bíblia e orar e que possa apoiá-la em meio a tudo isso sem julgá-la, mas verdadeiramente orientando e buscando a vontade de Deus junto com você. Confie que ele pode providenciar tudo de que precisa.

E passe aqui sempre que quiser. É muito bom conversar com você!

Que o Senhor te fortaleça em sua jornada, te dê sabedoria, graça e paz. Até a próxima!

Kisses,

Su

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