Hello, S.! Uma coisa muuuito importante de termos em mente quando lemos a Bíblia é o contexto histórico e cultural em que ela foi escrita. Paulo vivia no Império Romano do primeiro século e escreveu para igrejas em cidades desse império. Nessa época, dependendo da região, de 15% a 40% da população do Império Romano era de pessoas escravizadas. Essas pessoas eram, bem ou mal, mantidas por seus senhores que tinham obrigação de suprir suas necessidades mais básicas. Alguns escravos chegavam até a ocupar cargos elevados de administradores e escribas – mas não eram livres e não tinham salário. Sua situação era terrível, mas se uma revolução houvesse libertado todos eles ao mesmo tempo, a sociedade teria entrado em colapso. Imagine no Brasil oitenta a cem milhões de pessoas escravizadas que, de repente, precisariam receber salário, encontrar um lugar para morar, ter acesso a educação, saúde, etc. O problema não é que os senhores não tivessem condições de pagar por essas coisas, mas que eles se recusariam a fazê-lo. Não concordariam de imediato em ter “prejuízo”.
Da mesma forma, em uma sociedade totalmente patriarcal, como seria se as mulheres (muitas delas analfabetas) tivessem de ingressar de repente no mercado de trabalho sem nenhum apoio dos maridos?
Além disso, o termo revolução, no contexto histórico, implica geralmente o uso de violência para obter mudança. Seria necessário, por exemplo, matar ou, no mínimo, prender todos os senhores de escravos e todos os maridos machistas (ou seja, a grande maioria dos homens naquela época) para que pessoas escravizadas e mulheres tivessem um lugar justo na sociedade. Violência, morte, imposição nunca mudam o coração das pessoas. Veja o que aconteceu na revolução francesa, por exemplo. Ou na revolução russa. Aliás, mesmo com a abolição da escravatura, ainda temos hoje patrões que tratam funcionários como escravos.
Mais adiante, cristãos tiveram um papel muito importante nos movimentos abolicionistas (embora eles tenham demorado demais para se envolver!) e, até hoje, mutualistas e feministas cristãos se empenham para acabar com as injustiças e sexismo associados ao patriarcado. Mas as mudanças precisam acontecer na forma de pensar e, sobretudo, no coração.
Se revolução fosse solução para tudo, Jesus, o Deus todo-poderoso encarnado, poderia ter destruído todos os romanos, os fariseus e qualquer um que tivesse levantado obstáculos para ele. A mensagem dele, porém, foi de paz, sabedoria e amor. Ser pacífico não significa ser bobo, nem ser capacho dos outros, nem deixar que a injustiça corra solta, mas significa buscar mudanças que sejam verdadeiras e duradouras – coisa que as revoluções violentas não conseguem fazer.
Matar um empresário racista pela forma injusta que ele trata funcionários de etnias diferentes da dele não muda todo um sistema e uma sociedade racista. Mas usar as leis disponíveis em nosso país para que esse empresário preste contas disso é uma forma de mostrar para outros que esse tipo de atitude e pensamento não são aceitáveis. Melhor ainda é anunciar o evangelho para ele e, pelo poder do Espírito, vê-lo ser convencido do pecado dele.
Transformações verdadeiras são complexas, trabalhosas, exigem empenho em longo prazo e, se forem transformações de coração, exigem poder de Deus.
Por isso precisamos estar sempre abertas e atentas para o que Deus quer que a gente faça ao nosso redor para avançar a cultura e os propósitos do Reino dele, pois o Reino de Deus é de justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14.17).
Para se aprofundar nos aspectos históricos e culturais da Bíblia, eu recomendo este comentário:
https://www.vidanova.com.br/livros/box-comentario-historico-cultural-da-biblia-at-e-nt
Procure também boas Bíblias de estudo. Esta aqui é excelente, voltada para mulheres e trata de questões de gênero, sociedade e cultura também: https://www.mundocristao.com.br/produto/biblia-de-estudo-para-toda-mulher/
Até a próxima!
Kisses,
Su