Pergunta:

Desabafo: Su, vou fazer um desabafo gigante aqui. Uma amiga minha te indicou para mim, e apesar de eu ter uma tia (quase irmã) de 47 anos que me aconselha muito, eu tenho muita necessidade de colocar pra fora do peito tudo que sinto, até mesmo escrevendo para registrar todas as circunstâncias.Sou cristã e namoro há 3 anos. Conheci meu namorado na igreja, num piquenique de jovens. De início, ele era recém batizado, então ainda tinha alguns comportamentos que eram mais inadequados, como falar palavrão, ouvir música secular… mas ele foi o primeiro de sua casa a se batizar, depois vieram a mãe e a irmã. Começamos a namorar e, desde sempre, eu e ele queríamos muito cursar medicina, tanto que isso nos aproximou de início. Nosso namoro sempre foi muito bom, apesar de conversas difíceis frequentes. Eu tenho anotadas várias ocasiões dessas, como por exemplo quando eu conversei com ele sobre uma amizade feminina que ele tinha, mas que já desde uns 2 anos, não é mais nem mencionada por ele. Não há mais contato, foi algo pontual do cursinho, e como tenho livre acesso ao celular dele, mas não desconfio dele e não uso disso para investigar nada, sei que nunca mais eles trocaram uma palavra. E várias outras vezes que ele ajustou o comportamento dele, e eu, o meu, e tivemos conversas delicadas, como quando eu comecei a cobrar mais presença dele no meio da minha família. Eu chorava, conversava, ficava aflita, mas sempre resolvemos juntos, e ele sempre ajustou o comportamento dele em função daquilo que eu pedia, não como uma submissão dele a mim, mas como respeito, depois de avaliarmos juntos e arrazoarmos. Nunca mais eu tive uma resposta negativa a um convite para estar no meu convívio familiar, até mesmo com sacrifícios da parte dele para conseguir estar presente.Pois bem… nós fomos crescendo juntos, nos aproximando de Jesus, orando juntos, participando de projetos da igreja, dirigindo um pequeno grupo jovem, cantando, pregando, estudando o devocional todo dia de manhã (ele me ligava bem cedinho, 5h, e lia tudo para mim ). Quando ele entra no carro, mesmo que 5 vezes no mesmo dia, ele sempre ora antes de dar partida. Quando vamos comer, ele sempre ora comigo, em restaurantes, em casa, em qualquer lugar. Tudo isso me faz amar muito esse homem. Nós estudávamos juntos… ele sempre me buscava em casa, SEMPRE, mesmo morando a 20minutos de carro da minha casa, nunca precisei pegar Uber pra sair com ele (só quando ele não tinha carteira ainda), e nunca precisei me preocupar em como iria voltar para casa. Quando ele ainda não dirigia, mesmo assim ele esperava meus pais me buscarem. Nunca paguei um estacionamento sequer na companhia dele, nunca nem vi a soma das contas dos restaurantes, e sempre recebi presentes significativos (flores, cartões, panetones…) em datas comemorativas. Eu sei que muitos homens são bons, não é só meu namorado, mas eu sempre fiz questão de repetir tudo isso para mim, de agradecer a Deus e pedir que Ele continuasse conosco. Poderia dizer muito mais aqui… sobre como ele é solícito com minha família, sempre cortês, educado, prestativo (levar minha avó de carro num lugar longe, e ainda se oferecer pra buscá-la), tratar todos bem, sem distinção, ser cavalheiro (todas as vezes que saímos ele abre a porta do carro para mim, ou seja, continua me conquistando mesmo após 3 anos). É um ótimo filho, amigo e irmão.Agora vem o problema… eu e ele tentamos passar em medicina há mais ou menos 5 anos. Eu fui aprovada agora, em fevereiro de 2026. Logo quando saiu a nota do ENEM, e eu contei a ele meus pontos, ele ficou feliz, disse: “nossa, amor, você vai passar”, e eu estava um pouco incrédula, então ele falou “achei que você ia ficar mais feliz…”.Desde então, nosso relacionamento virou de cabeça pra baixo. Ele não teve inveja de mim, tanto que em nem um momento sequer ele diminuiu minha conquista, desprezou meu sucesso, ao contrário, elogiou a faculdade em que fui aprovada, dizendo que era uma faculdade e tanto.Mas ele é homem, e tem um ego alto, que tenta proteger a todo custo. Continuamos saindo, nos vendo, conversando… inclusive eu estava gripada um dia desses e ele se ofereceu pra me levar ao hospital. Me buscou, me acompanhou, me levou de volta. Mas parece que cada vez que nos vemos, tudo piora. Agora vem o mais complicado.No nosso namoro, nunca tivemos relações sexuais, nem algo parecido (oralidade, masturbação mútua ou envio de fotos íntimas). Mas dávamos muita brecha para beijos longos, demorados e afobados. E sempre foi assim, mas nunca chegamos a fazer nada mais, nada além disso. Às vezes íamos jantar num restaurante e depois ficávamos numa parte superior do shopping (uma ponte suspensa, aberta e com bancos, sobre o estacionamento) nos demorando em conversar por uma hora seguida, intercalando com beijos e carinhos. Eu confesso que, apesar de cristã, eu me deixei levar por isso sem ver maldade, porque pensava que o desejo não podia ser apagado, mas administrado. E então beijávamos muito.Pois bem… ultimamente, temos trocado pouquíssimas palavras por dia. Ele nunca mais me ligou para fazermos devocional de manhã, porque uma vez me ligou para isso e eu estava no ônibus, indo para a faculdade. Na hora, ele deu uma desculpa, disse que ligava depois, e nunca mais telefonou.As conversas, basicamente têm se resumido a “bom dia” e “boa noite”. A justificativa dele é que, a mente dele o sabota e o faz se desligar de mim, porque quando ele pensa em mim, logo vem à mente dele que ele ainda não foi aprovado, que eu já fui, que ele está “atrasando nossos planos de casamento” e que ele precisa passar, e isso o deixa ansioso e incapaz de estudar no decorrer do dia.Ele disse que, de fato, o problema atual do relacionamento é ele, a mente dele. Ele faz terapia, a cada 15 dias (para lidar com a pressão do vestibular e por ter TDAH). Mas ele já se abriu comigo e disse que a mente dele evita algo quando há uma sensação de rejeição, por exemplo, e ele tende a se afastar para se proteger. E que ela simplesmente “desliga” em relação a mim. Ele disse que, durante o dia, tudo o que ele menos quer é falar comigo.Apesar disso tudo, eu estou bem, só querendo que ele fique bem, de fato. Estou tendo paciência, respeitando o tempo dele, dando espaço e paz…O que acontece de mais grave… desde então, o apetite sexual dele aumentou gigantescamente. Ele disse que, como a mente dele tem ficado ocupada o tempo todo com essas preocupações, com a pressão interior e exterior, com os anseios, medos e sensações de insuficiência, na área sexual ele tem evitado pensar, e apenas sentido. Em conversa com minha tia, ela me tranquilizou e disse que, de fato, quando mulheres têm um problema, tudo que elas menos querem é sexo, mas o homem tem o sexo como válvula de escape, um lugar onde ele pode se sentir “homem“. De fato, meu namorado conversou ontem comigo sobre isso, mesmo sem saber, e ele disse que mesmo tendo ficado feliz por eu ter passado, ele quer ser melhor que eu (ele ainda disse que ele achava que isso era machismo, mas eu entendi que é apenas um desejo de ser admirado pela mulher que ele ama, de se provar a si mesmo, de poder se sentir capaz). Ele falou que quando todos esses pensamentos vêm à mente dele, ele acaba involuntariamente pensando em sexo, e eu complementei dizendo que é algo que acontece porque talvez ele se sinta Homem com H maiúsculo em relação a isso, o que o faz se sentir bem, mesmo ele sendo virgem.Meu namorado é muito sincero comigo, e ele se abre para resolver os problemas. Ele me disse que, quando adolescente, usava pornografia, mas os amigos dele resolveram parar com isso, e aos poucos ele foi deixando isso de lado, principalmente depois de se batizar. Ele me disse várias vezes que isso não tem a menor graça para ele, que tudo que ele queria era eu, que a pornografia não ajuda em nada, não resolve nada, porque ele deseja só a mim. Mas ontem ele confessou que os episódios de masturbacao têm sido frequentes, e que isso o tem feito se sentir um hipócrita, deixando ele sem vontade e coragem de orar e ler a Bíblia. Da penúltima vez que nos vimos, fomos ao parque caminhar, e quando ele me deixou em casa, disse que era para evitarmos nos ver, para ele não acabar pedindo algo errado, e ainda me disse que mesmo que eu não vá ceder, está errado ele me pedir. Também me fez prometer que eu não iria fazer nada só para agradá-lo.Acabamos nos vendo 10 dias depois, mas ele estava frio, distante, dizendo que ele não tem sido um bom namorado por me tratar assim, mas que não sabe mudar. Pareceu uma despedida, ele disse que estava cansado, que um relacionamento assim não se sustentaria muito tempo, e que eu iria acabar terminando, mas eu disse que não.Eu até perguntei a ele se isso não seria melhor, para que ele parasse de sentir tanta pressão, tanta tentação… e ele respondeu que, mesmo não querendo admitir muito, ele iria se sentir pior, porque seria a pior decisão da vida dele e que ele iria se arrepender muito no futuro, e ele iria sofrer bastante. Eu só queria vê-lo voltar a ter paz, sorrir e ter alegria novamente.Eu já afirmei meu amor por ele inúmeras vezes. Quase todo dia eu faço isso. O agradeci por estar fazendo sacrifícios por mi, por me proteger e zelar por mim. Disse a ele que eu o amo antes da medicina, que o conheci antes de ele se tornar médico, que o que mais me encanta nele é me faz querer passar o resto dos meus dias com ele é a sua sinceridade de coração e amor pela Palavra de Deus.Ele disse umas semanas atrás que estava pensando em parar de me dar presentes em datas comemorativas, para juntar dinheiro e comprar um anel de noivado para me pedir em casamento quando ele passar no vestibular.Ele também tem uma característica interessante. Ele pensa que, para casar, o homem precisa dar uma condição de vida igual ou melhor à que o pai dá à filha. Que dinheiro é o principal fator de divórcio, que não dá pra casar sem uma fonte de renda. Mas Su, uma faculdade de medicina dura 6 anos. Como vamos viver mais 6 anos assim?Minha única esperança é que ele seja aprovado aqui na nossa cidade, daí poderemos morar numa casa que meus pais têm (desocupada e disponível), perto da faculdade, e vender o carro que os pais dele deram a ele, para investir esse dinheiro e viver dos rendimentos dele.Eu estou tão triste. Como pode um namoro tão bom acabar assim? Como ele vai ficar? Será que ele vai desistir da fé por estar caindo em pecado? Será que ele não está sendo irracional, ao não conseguir esperar mais tempo por mim?Nem sei mais o que fazer. G.

Resposta da Sú:

Querida G., seja bem-vinda aqui ao blog. Sinto muito por essa situação complicada em seu namoro. Não é fácil ver um relacionamento mudar tanto.  Como seu texto é mais um desabafo do que uma pergunta, só queria sugerir algumas coisas para você pensar.

1. Não há muita coisa que você possa fazer no momento (além de orar). É evidente que seu namorado está passando por uma crise e que, em última análise, a questão não é com você, mas com a maneira que ele se enxerga, com os conceitos dele de verdadeira masculinidade e com as lutas dele com pornografia. Tudo isso é bem sério e, de fato, precisa ser tratado em terapia (como você disse que ele tem feito). São coisas que levam tempo e, talvez, quanto mais você tentar ajudar, pior pode ficar. Se vocês tentaram repetidamente dialogar sobre esses desafios, mas não chegaram a lugar nenhum, talvez seja hora de buscar outra estratégia. Vocês já pensaram em “apertar o botão de pausa” por um tempo? Definam um período (3 ou 4 meses, por exemplo), para cada um orar e refletir separadamente, sem interagir com frequência e, depois, marquem uma data para conversar novamente. Não é o “dar um tempo” para terminar o namoro. É um “fazer uma pausa consciente” para procurar restaurar o namoro. Pode ser uma forma de incentivar seu namorado a concentrar mais esforços em realmente tratar dessas questões todas que são sérios empecilhos para o relacionamento prosseguir. E sempre faz bem você também ter um tempo para pensar sobre seus ideais, suas expectativas e se você realmente quer assumir com ele um compromisso para o resto da vida.

2. Aquilo que você descreveu no começo, por mais bonito, romântico e agradável que possa parecer, na verdade cria uma assimetria dentro do relacionamento que reforça estereótipos não muito saudáveis de masculinidade. Um homem, para ser verdadeiramente homem, não precisa pagar conta de restaurante, abrir porta, cobrir de presentes, etc. Precisa ser um companheiro, que você como uma igual em competência, afeto, capacidade e poder de decisão. Seu namorado parece não ter essa visão. Ele parece achar que a masculinidade dele fica comprometida se ele não lhe der uma “vida melhor”, se ele não comprar anel para pedir em casamento, etc.

Seria interessante vocês considerarem juntos um formato de relacionamento com mais mutualidade, com mais simetria entre vocês. Trabalhar juntos para construir uma vida, esforçar-se juntos ao longo desse tempo de estudos e de desenvolvimento. E, por vezes, esses “juntos” pode significar a mulher sustentar o homem financeiramente, por exemplo. Qual é o problema? Um pensamento hierárquico, em que o maior peso da responsabilidade financeira, de decisões, etc., recai sobre o homem, é disfuncional e alimenta questões como essas de pornografia, de crise de masculinidade e afins. Convido vocês a repensarem isso tudo juntos, pois vejo uma possibilidade de renovação do seu relacionamento em um caminho de maior mutualidade. Digo isso por experiência própria, pois é essa mutualidade, esse companheirismo e essa divisão de cartas e responsabilidades que tem dado a meu marido e eu um casamento muito realizador, de profunda intimidade, ao longo dos anos.

Existem muitos fundamentos bíblicos e verdadeiramente cristãos para vocês buscarem uma dinâmica diferente e mais igualitária/mútua de relacionamento. Mas vocês dois precisam estar dispostos a explorar essa possibilidade juntos.

Se vocês tiverem interesse nisso, voltem a escrever e eu te mando links sobre isso. E, quem sabe, pode valer a pena tentar conversar com seu namorado sobre essa questão.

Por fim, lembre-se de que você não é responsável pelas escolhas de seu namorado diante de Deus. Ele precisa de acompanhamento psicológico e, se possível, de um homem cristão mais maduro que possa caminhar com ele no processo de tratar desse vício de masturbação. Mas precisa ser alguém que realmente vá apoiá-lo e ajudá-lo, e não condenar e julgar. Ore para que Deus coloque alguém assim na vida dele. E ore, também, para Deus continuar a dirigir você, lhe dar sabedoria e dar paz, aconteça o que acontecer.

Se esse relacionamento faz parte da história que Deus escreveu para você, ele pode trazer as mudanças necessárias, desde que você e seu namorado estejam dispostos a trilhar novos caminhos juntos.

E, se quiser continuar a conversa/desabafo, é só voltar aqui. Estamos à disposição!

Kisses,

Su

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